A “demonização” da CLT entre os jovens.
Por que algo que era sinônimo de estabilidade se tornou sinônimo de fracasso?

A ascensão da ideia de que ser CLT é algo ruim entre os jovens teve início devido ao crescimento de jovens considerados “coaches” publicando na internet o seus altos rendimentos como empreendedores, principalmente em meios como o marketing digital. Mas por que as pessoas têm levado esse discurso a sério, sendo que apenas 1% da população ganha o equivalente ao que é exibido pelos influenciadores?
Afinal, o que é a CLT? A Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, é um conjunto de legislações que abrangem os direitos e deveres dos trabalhadores, assegurando garantias legais como jornada de trabalho, salário mínimo, férias, licenças, entre outros benefícios.
Antes da CLT ser promulgada, durante o período do governo de Getúlio Vargas em 1943, as condições de trabalho eram precárias. Com o crescimento da revolução industrial, que começou a se consolidar no Brasil por volta de 1930, surgiu um novo modelo de trabalho nas fábricas, em que os trabalhadores, que incluíam crianças a partir dos 6 anos, trabalhavam de 14 a 16 horas por dia, em ambientes pouco iluminados, com muita sujeira e altos riscos de acidentes. Com a ausência das leis trabalhistas não havia indenização para casos de acidentes no trabalho ou licença médica. Quem faltasse ou executasse um trabalho considerado ruim, não recebia seu salário ou era demitido.
Mas mesmo com a segurança que o regime de trabalho com carteira assinada oferece, uma onda de repulsa a ele vem se popularizando entre os jovens, e falas como “Se tudo der errado, eu viro CLT” se tornaram comuns. A demonização do regime veio após a ideia de que ser CLT significava pegar ônibus lotados todos os dias, ter chefes que te exploram, trabalhar em condições insalubres e ser mal remunerado, se espalhou pelas redes sociais.
Mas ter a carteira assinada não coloca automaticamente o trabalhador em um subemprego, existem diversas pessoas que exercem sua profissão nesse modelo de trabalho e não trabalham em condições ruins, como médicos especialistas ou grandes atores da TV brasileira, como Tony Ramos que declarou que trabalhou com o regime de carteira assinada durante sua trajetória e que atualmente recebe aposentadoria pelo INSS após 37 anos e 5 meses de contribuição -direito que só é possível graças às leis trabalhistas.-
Boa parte da população “sofre no regime CLT”, cerca de 35,3% dos trabalhadores ganham até um salário mínimo, 33,2% trabalham na escala 6x1, e muitos relatam não ter tempo de fazer coisas básicas como ir ao supermercado ou fazer uma consulta médica. Mas os dados levantam um questionamento: O problema está no regime de carteira assinada ou nas condições de trabalho que estão sendo oferecidas nos empregos do Brasil?
A Discussão também levanta pautas sobre a necessidade de melhorias nas leis trabalhistas, algumas pessoas sugerem diminuição da escala 6x1 para a 5x2 e aumento do salário mínimo.
A solução oferecida pelos influenciadores que pregam pela substituição do regime CLT é o empreendedorismo, que para alguns deles, é a única forma de ascensão social. Mas a realidade do empreendedor pode ser muito diferente do que se prega na internet. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, feita para o Itaú Empresas, revela que mais da metade dos donos de PMEs (pequenas e médias empresas) tiveram problemas de saúde devido à rotina de trabalho. Empreendedores no Brasil relatam que gostariam de ter mais tempo com a sua família, ou de terem tido problemas na vida social devido ao estresse gerado pelo trabalho. Abrir uma empresa pode ser uma alternativa profissional, e contribui para a economia do país, mas dados mostram que a realidade da maioria dos empreendedores é diferente das que são exibidas nas redes. Ao seguir o modelo PJ/MEI não se conta com as garantias trabalhistas oferecidas pela CLT aos trabalhadores, e que muitas vezes o indivíduo pode ter que trabalhar horas excessivas ao dia sem estabilidade ou garantia alguma. Uma sondagem realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) no início de 2024 mostrou que 67,7% dos trabalhadores por conta própria entrevistados gostariam de possuir carteira de trabalho assinada. Além disso, 45% deles eram autônomos por necessidade, e não por opção.
“Por mais que a gente tenha visto uma mudança das pessoas enxergarem no trabalho autônomo uma chance de ganhar mais, a maioria ainda entra nesse modelo por necessidade, porque perdeu a fonte de rendimento e precisa trabalhar. Não é algo tão espontâneo quanto parece”, explica Rodolpho Tobler, economista do FGV Ibre.
Talvez o problema seja justamente idealizar modelos de trabalhos como perfeitos, ou única forma de crescimento profissional. Da mesma forma que o regime de carteira assinada não deve ser associado a condições ruins de trabalho, o regime autônomo não deve ser associado à garantia de liberdade. No fim, o trabalhador, independente do regime escolhido, quer conseguir viver com conforto sem ter que abdicar da vida pessoal em prol do trabalho.
-FONTES ULTILIZADAS
https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/05/24/medo-jovens-clt-o-que-es
https://vocesa.abril.com.br/economia/quais-sao-os-maiores-desafios-do-empreendedor-brasileiro-hoje-essa-pesquisa-responde/
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/revolucao-industrial.htm
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Isabella Sampaio